27 julho 2016

mário cesariny / o navio de espelhos



O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
A sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo



mário cesariny
a cidade queimada
assírio & alvim
2000




26 julho 2016

josé maria valverde / madrigal do emigrado



Terra mínima e fiel, mulher de sempre,
és a minha pátria arada e fértil, levas
minha linguagem, minha gente, meu diálogo;
em ti acampo no novo, lar errante
com o mesmo ruído de filhos e de pratos;
colonizas o aberto, sem temores,
torna-lo amigo e nosso, oh peregrina
suavemente cambiante pelos anos,
pela luz diferente dos países;
tu, minha vida na mão até ao fim.


josé maria valverde
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985




25 julho 2016

sylvia plath / palavras



Machados,
depois do seu golpe a madeira ressoa,
e os ecos!
Ecos que partem
do centro, semelhantes a cavalos.

A seiva
jorra como lágrimas, como
água capaz de lutar
para refazer o seu espelho
sobre uma rocha

que cai e se transforma,
uma branca caveira
consumida pelas ervas daninhas.
Anos depois
encontro-as na estrada…

Palavras secas e sem cavaleiro,
infatigável ruído de cascos.
Enquanto
do mais fundo do lago as imóveis estrelas
regem a vida.



sylvia plath
pela água
tradução de maria de lurdes guimarães
assírio & alvim
1990



24 julho 2016

al berto / filhos de rimbaud


III

Os dias estão cheios de cartas e recomendações,
de amigos que partem para sempre, ou adoecem, de recados e de intrigas,
de contas intermináveis, de ouro, de corpos, de fortuna e de infortúnios.
De morte, e de cães feridos a uivar à porta da desolação.

Uma espécie de miséria e de orgulho, escorrem no fundo de mim.
E talvez seja a mistura venenosa da miséria com o orgulho que me há-de perder...
Não tenho mais nada a dizer. Os poemas morreram.

Fugir tornou-se uma obsessão,
ou então é a melhor maneira de encarar o desespero.
Bebi águas inquinadas. Vi o corpo suspenso no rebordo dos poços,
o coração batendo descontrolado.
Mas a morte, quando se aproxima, é uma coisa simples...
vem comer à mão a cinza melodiosa dos dias.

Por isso sei que, ao amanhecer, posso perguntar:
Quantos africa murcharam na boca do amor?
Quantas feras despedaçadas foram comidas ao entardecer?
Quantos homens conseguiram apaziguar o relâmpago da paixão?
Quantos desejos ficaram abandonados na escuridão intacta dos quartos?
A qual dos demónios me vender?
Que besta suja será preciso adorar?
Em que sangue contaminado mergulharei a língua?
Que fogo estranho é este? - que devora a beleza interior das coisas...
Que mentira me poderá salvar?

Uma golada de veneno e eis que se acende o talento.
O rumor precioso das sílabas. O choro e o riso.
O brilho gelado das imagens.
(Então), Ergo o cachimbo e fumo um tempo futuro,
ajeito o cinturão onde guardo o ouro - e vou pelo engano das palavras...
Descubro a febre, a ânsia do eterno viajante.

Abro as mãos, solto as borboletas e os pássaros,
que dizem ser a alma dos mortos... um espelho onde não me reconheço...
mas o pior é que nunca acreditei no que me disseram, e parti o espelho.
O azar nunca mais me largou, e também não posso dizer
que os negócios me tenham corrido bem...
Foi maldição, dizem.

Paciência. Mas não há maldição sem desejo - e eu não paro de desejar,
sôfrego... capaz de arriscar a vida e a razão. Ou de matar.


al berto
filhos de rimbaud
revista ler
abril de 1997


23 julho 2016

antónio franco alexandre / entende que te ouço quando o corpo



Entende que te ouço quando o corpo
abre na noite os flancos
quando oculta o pavor
as asas de ouro

quando mais nu que a água acordas
na brancura
e fere
o incessante

olhas e
a tempestade varre
o desabrigo

quando se rasga o ar
a boca movediça
fonte escura


antónio franco alexandre
cartão-postal
poemas
assírio & alvim
1996



22 julho 2016

antónio manuel couto viana / café de subúrbio



1.
O café bebe leite, coca-cola
E sumos de laranja e de limão.
A adolescência, quando sai da Escola,
Invade-o de alegria e confusão.

Eu, com a minha idade e uma cerveja,
Escondo-me nas folhas do jornal,
Pra que ninguém me veja
Sem me achar natural.

E sei que já por dentro também envelheci.
E tudo quanto me destrói, agora,
É o desejo de fica aqui,
Envergonhado de não ir embora.


antónio manuel couto viana
as escadas não têm degraus 4
livros cotovia
janeiro 1991




21 julho 2016

jorge luís borges / orgulho da serenidade



Escritas de luz investem pela sombra, mais prodigiosas do que meteoros.
A alta cidade irreconhecível cresce sobre o campo.
Certo da minha vida e da minha morte, olho os ambiciosos e queria
                                                                                             entendê-los.
O seu dia é ávido como o laço no ar.
A sua noite é a trégua da ira no ferro, rápido ao atacar.
Falam de humanidade.
A minha humanidade está em sentir que somos vozes da mesma penúria.
Falam de pátria.
A minha pátria é um ganido de guitarra, alguns retratos e uma velha
                                                                                                       [espada,
a clara prece do salgueiral nos entardeceres.
O tempo está a viver-me.
Mais silencioso do que a minha sombra, cruzo o tropel da sua excitada
                                                                                                          [cobiça.
Eles são imprescindíveis, únicos, merecedores do amanhã.
O meu nome é alguém e qualquer um.
Passo com lentidão, como quem vem de tão longe que não espera chegar.


jorge luís borges
obra completas 1923-1949 vol. 1
lua defronte  (1925)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998



20 julho 2016

diogo vaz pinto / que espécie de anjo


A carne é triste, e eu
já li todos os livros.

Mallarmé


Para o Jorge e o Manuel


Neste vazio, simples, directo, ficamos
como possuídos, amaldiçoando o mundo
em voz baixa, nestes apartamentos minúsculos.
Lâmpadas fundidas, lençóis sujos,
esse colchão cansado e a janela segurando
um copo de chuva.

Recebemos estranhos. Tenho um ali
com a cabeça metida na penumbra,
extraindo a claridade de alguma veia.
(Não sei que espécie de anjo desce
tão baixo.) Os infelizes que se enforcam
neste meu quarto de que a cabra da lua
tanto gosta, e vem vê-los baloiçar.

A minha voz muda a noite inteira,
rindo nuns tropeções de choro,
amargo deslize entre música e sono
derramado. Ando de punhos cerrados
e boca aberta que vai
ler nos lábios de um reflexo
uma descrição absurda. Olha para ti:
de roupão, saco de plástico, lembras
um vagabundo, para cá e para lá,
dentro de casa. Escuta,

o sol já se deixa ouvir nos fundos,
mas perdeste a nitidez. Objectos, imagens.
A luz, por aqui, mal pousa nas coisas.
Não reconheço o céu, não entendo
onde nos levam as distâncias
lá fora, como se fossem caminhos.
Nem banho, nem pente, só o cachecol
e um rumor de sementes nos bolsos.
Sigo-o, embalado pelo vento
até jardins incertos onde engrossa a raiz
dos pássaros. Nas traseiras do mundo,
os quintais do abandono. Um inventário
difícil, a inútil perfeição que regressa
de certas imagens. Um quadro
de bicicleta e um sofá esventrado, telhas
quebradas, flores das que cantam
à beira de precipícios e uma gaiola
envolvida na recordação de qualquer
coisa que nos fugiu. A tarde ali
de gatas, lavada de uma luz magra,
luz de desterro onde a chuva cai num
tom respeitoso e estende a sua rima
subtil entre estas ruínas d´eco.

Não deixes que anoiteça tão cedo.
Sem dares por isso, as mães chamam
os miúdos, os cães perdem os donos,
as ruas precipitam-se como rios
arrastados pelo bulício, e, enfim,
lá está aquilo a que não querias voltar.
Enfiados nas noites uns dos outros,
bares, carrosséis medonhos onde
cada um de nós vai sendo, à vez,
o eixo fixo da mais triste e precária
constelação.

O monstruoso esgar de uns, o frágil
sorriso de outros e a tua cara,
esse olhar de imbecil curiosidade
pactuando com esta fé terrível,
culto de uma raça sem profundidade
a que assistes, desviando o coração.

Horas em que o mundo faz demasiado
sentido e se torna simplesmente
cruel. Mesmo se tudo em nós
pede pátria, continuamos sozinhos.
Seduzimo-nos, fodemos maravilhosamente
como só os desesperados, mas acordamos
a meio da noite com a ansiedade
da lua, à espera denos ver baloiçar.



diogo vaz pinto
ladrador
averno
2012



19 julho 2016

rui miguel saramago / autoretrato – II


[…]

Eu já via as cataratas do Niagara do lado americano.

Eu já via as cataratas do Niagara do lado canadiano.

Eu já bebi um irish cofee no café onde foi inventado o irish cofee.

Eu já assisti a um concerto do Dizzy Gillespie.

Eu já me emocionei por estar no alto do Arc de la Défense só cm o céu
A toda a volta de mim.

[…]

Eu já dei aulas de inglês.

Eu já medi a minha cintura.

Eu já vi a Abbey Lincoln ao vivo por duas vezes.

Eu já assisti a uma sessão de demonstração ao vivo de Sado-masoquismo.

Eu já estive dentro de um reactor nuclear.

[…]

Eu já acendi velas.

Eu já consultei mapas.

Eu já comprei as gravações completas da Carmen McRae para a Decca.

Eu já aprendi a tirar raízes quadradas.

Eu já comi um Big Mac.

[…]

Eu já estive na Praça do Comércio.

Eu já estive na Praça do Comércio quando estava a ser conquistada
Pelos diabos.

Eu já ouvi os discos todos do Prince.

Eu já aplaudi a Dana Bryant.

Eu já comprei um casaco do Oscar de La Renta.

[…]



rui miguel saramago
poezz
almedina
2004



18 julho 2016

kiki dimoulá / quadro biográfico



A casa
fita o caminho público
e o mar
com a lógica de quatro janelas,
rindo-se estereotipadamente
com uma ampla varanda
cor-de-laranja.

Nessa varanda
nesse sorriso
às tardes, a minha mãe
expõe o rosto
ilegível.

O tempo o compôs
sem impulsos
noite após noite
numa língua que escorre dor,
enchendo
páginas de usura.
E nem sequer o erro dum riso.

Senta-se
na pontinha da cadeira
para não pesar na tarde
com todo o peso do seu coração adoentado,
apenas para existir
parada no meio da vida
por uma suspensão do destino,
apenas para poder aguentar agora
o espasmo do seu espanto:

«Existem mares
e barcos nervosos
que empurram soluções
para aquilo que não tem obstáculos?
E ventos que desenraízam aquilo que estagna?
E aquilo que é compreensível onde bebe cores
a tarde alcoólica,
existe?» Não sabe.
Não o soube a sua vida.

Agora
ousa um movimento estranho:
lança o corpo um pouco em frente,
torna a encostá-lo para trás,
dá fortes remadas da memória,
vidro vidro as suas lágrimas.

Pouco a pouco
tarde, rosto e varanda
são mimados pelo crepúsculo.
A sua forma enlouquece.
Fecham-se num espaço tumular
para não voltarem a entrar-nos no olhar.
Anoitece.



kiki dimoulá
inimigo rumor 14
trad. manuel resende
livros cotovia
2003




17 julho 2016

fernando gandra / só hoje te escrevo este vestido



Só hoje te escrevo este vestido
de palavras. Desculpa.
Oxalá que ao recebê-lo os pés
inchados das tuas ilusões inamovíveis
sosseguem junto à fonte.
A mãe, aqui ao lado, é uma sombra
do que pensas: repousa entre o frio
dos joelhos. A tua boina em ponto cruz
está pronta. O forno é bom e sem
enredo: sempre o mesmo.
A taça muito magra do silêncio
entra (ainda) pela janela.
Na varanda as zinias continuam razoáveis.

Pelo corrimão do tempo desce o gelo.
A tua ausência é uma casa muito espaçosa.
Responde-me na volta do sangue.

Beijos.


fernando gandra
sião
organização e notas de
al berto, paulo da costa domingos e rui baião
lisboa
1987




16 julho 2016

antónio ramos rosa / o grande nó obscuro de existência



O grande nó obscuro de existência
será dilacerado
pelo derradeiro gume do destino
e não iluminado.
Tudo o que existe vacila lentamente
em torno da indiferença
da luz à sombra dos ciprestes.


antónio ramos rosa
horizonte a ocidente
relâmpago
revista de  poesia nº. 15
outubro de 2004



15 julho 2016

ferreira gullar / a estrela



Gatinho, meu amigo
fazes ideia do que seja uma estrela?

Dizem que todo este nosso imenso planeta
        coberto de oceanos e montanhas
        é menos que um grão de poeira
        se comparado a uma delas

Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos

O mesmo que a eternidade

Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
                     quanto dura uma estrela

Importa-me quanto duras tu,
               querido amigo,
               e esses teus olhos azul-safira
               com que me fitas


ferreira gullar
relâmpago
revista de  poesia nº. 14
abril de 2004