13 fevereiro 2016

leopoldo maría panero / como nos cães



     … Como nos cães,
tocados por seu dono,
vagueia todo o amigo da terra,
assim quisera eu minha palavra:
simples,
tímida nas pupilas,
com sílabas errantes de menino.

     Improvisar o mundo,
e todo o diáfano do mundo,
com a data encontrada no orvalho
e com o sopro tépido da mão…

     Pois o que vale é o real
escrito com a exalação do real,
e com o sedimento aéreo
do coração que pulsa chamado por seu dono,
leve,
muito levemente
oh, poema.


leopoldo maria panero
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução josé bento 
assírio & alvim

2001



12 fevereiro 2016

manuel margarido / golpe



Olha, deixa-me dizer-te isto antes que me esqueça: pego na fotografia, aquela a que nunca chamámos nossa porque éramos só nós sem espólio. Seguro-a como se fosse perigoso.
É um gesto inútil, a distância apenas contraria a memória.

Reparo devagar no inacreditável alongamento dos corpos quase impossíveis, vegetais. Vejo a assimetria de, a textura que, a sombra sobre, o intervalo entre. E como parecem banalidades em moldes.

E é um risco, sabes, porque subitamente lembro-me do corte, de um pequeno golpe já curado, terá sido faca, falha, acidente, procura de dor. Não sei. E é o que não sei que se ateia, é a maldição dos indícios. Um só dedo, por exemplo, um só dedo traçou palavras, alegrou-se, apontou na vertical, pousou sobre a febre, deu começos a solo. E o resto?

Não permito a fala da fotografia, a imprecisão com que descreve a junção, o erro no que diz do clarão que trouxe o escuro que nos abrigou da morte. E da grande luz que deu.


manuel margarido
voo rasante
antologia de poesia contemporânea
mariposa azual
2015



11 fevereiro 2016

mia couto / escrita



Tenho fome de um nome
e procuro-o para além dos idiomas
como garimpeiro de vozes
esgravatando um chão de silêncios.

Ecoa em mim
um búzio sem mar,
um peixe agoniza
no estremecer da página nua.

Hoje fui beijado por serpente.
E me espelhei
água sobre a lua.

Hoje escrevi mel
sobre a picada da abelha
isso a que outros chamam poesia.



mia couto
tradutor de chuvas
caminho
2013




10 fevereiro 2016

herberto helder / fico indiferente



fico indiferente a vê-los gostar de poemas meus da juventude,
poemas tão inconscientes de si quando se coloca a mão
numa fruta, num livro encadernado,
e estranho, que passem rápido sobre a ferida ainda aberta,
ou não sintam a rispidez com que se fecha o dia
ao voltar a página
sob a noite afogando casas, pessoas, todos os livros do mundo,
e já declina a beleza completamente despida
da jovem ateniense que abriu a porta e traz a luz ao quarto inteiro
                                                                                             de uma só vez,
mas deixa que se suspeite a treva infinda de onde chega,
ávida fêmea de que equívoca temperatura,
de perguntas como: que idade tem a terra?
em que data de que sítio é a primavera?
ou: este arrepio nas unhas anuncia que morre de que coisas?
(alguém algures assobia uma canção em voga)
¿e que terror é este saber que há tanta vida
neste dia em que decerto, entre ruído e silêncio cada vez mais fundo,
alguém sente que a ferida lateja,
e há numa página do livro
 – aguda, obscura, ofuscante –
uma dedada de sangue?


herberto helder
relâmpago
revista de poesia 36/37
fundação luís miguel nava
2015




09 fevereiro 2016

irene lisboa / chuva



Chuva nos vidros.
Nada, chuva nos vidros!
Espaçadas, casuais, agudas, oblíquas, agulhadas.
Chuva que se anuncia, que apenas se anuncia.
Pingas que vão secando. Se vão arredondando,
tornando imateriais e invisíveis.
Vagas coisas. Como quê?
Como as coisas da minha vida.
Nem já chuva nos vidros…
Já não de vêem os sinais.



irene lisboa
umdia e outro dia…
outono havias de vir
obras de irene lisboa
volume I poesia I
editorial presença
1991



08 fevereiro 2016

kálas / xadrez



Um mundo – um mundo rectangular este meu mundo.
Nas suas simplificadas dimensões se emboscam os
      horizontes do dia, a superfície contrastante do equinócio.
Todos os crimes da vida – astúcias homicídios – revivem
      na madrepérola e no ónix onde penosamente se
      deslocam os símbolos de marfim, os ídolos de coral da
      mente impiedosa.
O itinerário deles, suas paradas perigosas, seus
      desapontamentos e pilhagens – alegrias do que foi outrora
      coração.
Agora com algum raro movimento de mão ela busca
      complicar o jogo árido.
As violações, o sangue derramado, o que na alma existe
      de secreto, nada disso se mostra nas austeras variações.
Aqueles porém que conhecem as regras vêem ao espelho
      as terríveis imagens que os dois jogadores encerraram
      no quadrado de ébano e que tentam dissimular com
      bonecos simplórios.



kálas
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
tradução josé paulo paes 
assírio & alvim
2001 



07 fevereiro 2016

adolfo casais monteiro / vem vento, varre!



Vem vento varre
Sonhos e mortos.
Vem vento, varre
Medos e culpas.
Quer seja dia
Quer faça treva,
Varre sem pena,
Leva adiante
Paz e sossego,
Leva contigo
Nocturnas preces,
Presságios fúnebres,
Pávidos rostos
Só cobardia.



Que fique apenas
Erecto e duro
O tronco estreme
Da raiz funda.
Leva a doçura,
Se for preciso:
Ao canto fundo
Basta o que basta.


Vem vento, varre!


adolfo casais monteiro
noite aberta aos quatro ventos
inquérito
1959




06 fevereiro 2016

william carlos williams / paisagem com queda de ícaro




De acordo com Brueghel
quando Ícaro caiu
era primavera

um lavrador arava
os seus campos
todo o esplendor

do ano
formigava ali
à

beira do mar
consigo mesmo
preocupado

suando ao sol
que derretia
a cera das asas

perto
da costa
houve

uma pancada quase imperceptível
era Ícaro
que se afogava



william carlos williams
antologia breve
tradução josé agostinho baptista
assírio & alvim
1993





05 fevereiro 2016

sebastião alba / génese



Foi assim
Todo o mar que eu via
se precipitou logo no meu coração
Que é de sal

E os peixes cristalizaram
com os olhos mortos
para as suas manhãs refractadas

Escutando bem
ouve-se como ao pé duma estátua
música parada



sebastião alba
o ritmo do presságio
edições 70
1981




04 fevereiro 2016

al berto / lisboa



lisboa
por tràs dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa


mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro


plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de iris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - lisboa



lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres



e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves

  
al berto







03 fevereiro 2016

herberto helder / (a colher na boca) prefácio



Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
— Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.


Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes —
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.


Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
— Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?


Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
Inspirações.
                     — Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações,


Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas.
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros —
comovidos, difíceis, dadivosos,
                                                 ardendo devagar.


Só um instante em cada primavera se encontravam
 com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
                        — E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva — tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.


— E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.


Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
celestes que fulguram lentamente
até uma baía fria — que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.


Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
                                                         de beleza.


herberto helder
poesia toda
assírio & alvim
1996





02 fevereiro 2016

andreia c. faria / frieiras



Difícil amar
os eventos do corpo, as pequenas traições, as frieiras
quando a magnólia sagra a Primavera

Todo o Inverno resistiu, mais agora
a tua mão abre-se vívida e inteira
como um coelho acabado de esfolar

Parapeito das rebentações, os gestos
aparecem-te ínvios como nomes
num minucioso mapa de guerra

Até ao fim d estação será assim:
a tua mão calcada e com o sangue
a obstinar-se-lhe dentro, a bater
nos nós dos dedos sem que alguém compareça
do lado de cá

Ninguém te desembrulha o estilhaço, a pele sensível

Trazes os bolsos desmaiados de sentidos

Tens os dedos fechados
do frio que não faz
e isso é difícil de amar

  
andreia c. faria
voo rasante
mariposa azual
2015



01 fevereiro 2016

narciso pinto / horóscopo



Dias mais difíceis virão, querida!

Seja isto que te escrevo –
A roldana de estendal que te traga a mim…

Tenho evitado toda e qualquer vichyssoise
A não ser por debaixo da mesa…
E sei agora que as ideias ou se lavam à mão
Ou encolhem…

Sei a textura exacta do teu suspiro –
Frágil miado de porcelana!
Sei o quanto anseias sonhar sem quilha,
Roçares-te pornograficamente nas nuvens…

Na esquina mais humana de ti,
Sou abordado por todo o tipo de gente…
Não te dá sossego, essa corja?
Não te será permitido um laivo de solidão?

Hei-de cavar funda a cova no peito
E enterrar-te viva dentro de mim…

Dias mais difíceis virão, querida!


narciso pinto