28 junho 2016

jorge reis-sá / as portas



Estão abertas, as portas. Aquela que segurava a casa
está demasiado exposta, tudo permite.
E os ratos do campo entram silentes por entre
as folhas que o último Outono imprimiu.

Escondem-se sobre o soalho,
trazem aos filhos as bolotas de uma árvore distante.

  

jorge reis-sá
vou para casa
quasi
2008




27 junho 2016

claudia roquette-pinto / em sarajevo



Na primeira foto ela ri,
selvagem,
e se mistura às amigas.
Um ano mais tarde,
posa com as mãos no colo,
coluna reta,
os pés cruzados pra trás.
Por dentro do uniforme pressente
uma mulher, a passos largos,
galgando as ruas de grandes cidades
– quem sabe, no exterior.
Quando a vi, ali, distraída,
na escada do ônibus escolar,
nada me preparou para as suas pernas abertas,
no meio a flor dilacerada
repetindo, entre as coxas,
o buraco da bala no peito:
um dois pontos insólito.


claudia roquette-pinto
relâmpago
revista d epoesia nº. 14
abril de 2004



26 junho 2016

jean racine / fala de tito



Sei que só eu, por fim, me posso destruir;
mas pude já viver, deixar-me seduzir.
Meu coração nem qu´ria indagar no futuro
aquilo que pudesse, entre nós, ser um muro.
Agradava-me crer que nada era invencível:
sem nada examinar, eu esperava o impossível.
Ou esperava, talvez, perante vós morrer,
sem este adeus cruel haver de vos fazer.
De obstáculos até me incendiava outrora.
Que importavam razões? Mas a glória, Senhora,
inda eu a não ouvira, em meu foro interior,
no tom em que ela fala a um Imperador.
Conheço bem de mais tormentos que irei ter;
sinto bem que sem vós nem saberei viver.
Meu coração de mim começa a se afastar:
nem de viver se trata: apenas de reinar.

bérénice, acto IV, cena V



jean racine
vozes da poesia europeia II
traduções de david mourão-ferreira
colóquio letras nr. 164
fundação calouste gulbenkian
maio-agosto 2003



25 junho 2016

jorge luís borges / ausência



Eu haverei de erguer a vasta vida
que ainda é o teu espelho:
cada manhã hei-de reconstruí-la.
Desde que te afastaste,
quantos lugares se tornaram vãos
e sem sentido, iguais
a luzes acesas de dia.
Tardes que te abrigaram a imagem,
música em que sempre me esperavas,
palavras desse tempo,
terei de as destruir com as minhas mãos.
Em que ribanceira esconderei a alma
pra que não veja a tua ausência,
que como um sol terrível, sem ocaso,
brilha definitiva e sem piedade?
A tua ausência cerca-me
como a corda à garganta.
O mar ao que se afunda.


jorge luís borges
obra completas 1923-1949 vol. 1
fervor de buenos aires (1923)
trad. fernando pinto do amaral
editorial teorema
1998



24 junho 2016

jorge de sena / cidade






Imensa, troglodita, ambiciosa,
vai a cidade até à praia;
perdeu no campo as rochas cor-de-rosa,
e o mar, se a busca, evita-a, não desmaia,
antes se ergue negro contra o desconforto.

O rio leva casas debruçadas
que já, com o tempo, foi cavando em arcos
de perfil sem cl, inclinado e morto…
e leva também barcos.

No céu, as nuvens correm desviadas,
Enquanto o Sol, em dardos, sobre o mar se crava.


jorge de sena
daqui houve nome portugal
eugénio de andrade
editorial inova
1968


23 junho 2016

luís vaz de camões / lá na leal cidade …



Lá na leal cidade donde teve
Origem (como é fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leve
Manda o que tem o leme do governo.
Apercebem-se os doze, em tempo breve,
De armas e roupas de uso mais moderno,
De elmos, cimeiras, letras e primores,
Cavalos, e concertos de mil cores.

Já do seu Rei tomado têm licença,
Para partir do Douro celebrado,
Aqueles que escolhidos por sentença
Foram do Duque inglês experimentado.
Não há na companhia diferença
De cavaleiro, destro ou esforçado;
Mas um só, que Magriço se dizia,
Dest’arte fala à forte companhia:

Fortíssimos consórcios, eu desejo
Há muito já de andar terras estranhas,
Por ver mais águas que as do Douro e Tejo,
Várias gentes e leis e várias manhas.
Agora que aparelho certo vejo,
Pois que do mundo as cousas são tamanhas,
Quero, se me deixais, ir só por terra,
Porque eu serei convosco em Inglaterra.

E quando caso for que eu, impedido
Por Quem das cousas é última linha,
Não for convosco ao prazo instituído,
Pouca falta vos faz a falta minha:
Todos por mim fareis o que é devido.
Mas, se a verdade e o espírito me adivinha,
Rios, montes, Fortuna ou sua enveja
Não farão que eu convosco lá não seja.



luís vaz de camões
daqui houve nome portugal
eugénio de andrade
editorial inova
1968



22 junho 2016

pedro silva sena / call center



Sob o clarão fluorescente mergulhados em um fundo
Fechados como em uma caixa.

Filas de cadeiras em chamada
Ininterruptamente
Divisórias favos de saliva.

Pinças cravadas nas têmporas
Rigorosamente
Quinze minutos

Muito bom dia, o meu nome é

Uma voz

Muito boa tarde, o meu nome é

Um nome              repetido

Muito boa noite, o meu nome é

Um número

Fechadas como em uma caixa
As gaivotas dão no ecrã das janelas
O script azul sereno.


pedro silva sena
di Versos
poesia e tradução nr. 15
junho de 2009



21 junho 2016

angél gonzález / todos vocês parecem felizes…



… e sorriem, às vezes, quando falam.
E até dizem uns aos outros
palavras de amor. Mas
amam-se
de dois em dois
para
odiar de mil
em mil. E guardam
toneladas de asco
por cada
milímetro de felicidade.
E parecem – nada
mais que parecem – felizes,
e falam
com o fim de ocultar essa amargura
inevitável, e quantas
vezes não o conseguem, como
não posso ocultá-la
por mais tempo: esta
desesperante, estéril, longa,
cega desolação por qualquer coisa
que – não sei para onde – lentamente, me arrasta.


angél gonzález
antologia da poesia espanhola contemporânea
selecção e tradução de josé bento
assírio & alvim
1985



20 junho 2016

josé gomes ferreira / olho para o céu imenso



VII

Olho para o céu imenso
com desespero comovido..
Aquela nuvem sou eu que a penso
ou nada tem sentido


josé gomes ferreira
poesia II
areia 1938
portugália
1962



19 junho 2016

maria velho da costa / madrugatas



Encontramo-nos um dia ao rés-do-chão e fazemos menção dos elementos, quer chova, quer não. É a hora de gatas. Mas que é isto do horário, mas que é isto do pão, mas que é isto dos bicos de gás, mas que é isto da companhia, mas que é isto da pele sobre o osso (vendo-a esfriada, unha negra, pelo de arrepio), e fica-se com o fósforo suspenso ou bico fechado. Se dormíssemos com convicção era certo que vinham dizer-nos que sim. Mas eram tantos com a linguinha de fogo na cabeça a alumiá-los em pé – de se ficar ceguinho de encandeia, assim, a lume brando. De gatas, pois, no ar, fintar o sono, o sonho (nele detém a almotolia, o azeite que sobrenada a água chilra, a virgem prudente da mão decepada, morrão pendente do dente, que, mesmo inconsciente, sente). N.B. os jogos da mente são os primeiros signos da doença da palavra, i. e. de que a língua pátria já não alumia o utente.

As gatas são pois a alternativa dos voos picados. Agachar-se é sempre à contra-pássaro. Alguns gatos morrem de pé, mas isso é o másculo da história. Eu disse gatas. É preciso escapar por uma unha e raspar com ela no caixote próprio ou alheio até que faça peixe. Improvável. É pois de improviso o sobreaviso sobrevivo-olhai os pássaros da água e os peixes no chão ao vir da luz. Que isto é tudo uma permuta, uma apara de vidas, línguas de companhia, contos adiados. Deixai os meio-vivos encovar suas órbitas, escamar-se a esta hora, choro à borla e segue. A bem aventurança é a posta póstuma a esta hora. A poça onde as gatas sape-sapam de lambidas. Poça. Olha se não pingassem sangue ou choro, choco desta tinta, nacos de peixe vivo na calçada.

Capital 26-4-72


maria velho da costa
desescrita
afrontamento
1972



18 junho 2016

vittorio sereni / seis horas da manhã



Não há nada, já se sabe,
A que a morte
Não arranque o lacre.

De volta a casa, a porta
Estava mal fechada,
Para não dizer aberta.
Morrera há pouco tempo,
Desfeito em poucas horas. Mas
Vi o que os mortos, realmente,
Não podem ver:
A casa atravessada pela minha morte
Acabada de estrear,
Apenas um pouco espantada,
Quente ainda do calor
Que me deixara,
Quebrada a tranca,
Vão o ferrolho,
Vasto o ar que em meu redor
Me tornava tão ínfimo na morte.

 – Uma após outra, as avenidas
despertavam em Milão, alheias
a todo este vento.


vittorio sereni
tradução de ernesto sampaio
a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim
2001



17 junho 2016

miguel torga / ao fogo



Chama da inspiração, que me devoras,
Alarga o teu abraço ao mundo inteiro!
Reduz o pesadelo destas horas
A um braseiro
De amor!
Funde no teu calor
A montanha de gelo e de tristeza
Que nos oprime o corpo e o coração.
E que a grande fogueira da beleza
Seja o sol duma nova redenção.


miguel torga
odes
1946



16 junho 2016

joão meirinhos / fronha


Perdi os fósforos, as
Cortinas corridas símbolo
De um silêncio óbvio
Arranhando o seco com um
Esgar, e quem sabe quem
Somos senão sombras
Num quarto de soluço às
Apalpadelas, durante a
Dura do duche decido que
Sou incapaz – nunca
Saberemos a que
Cheiras ao acordar, o
Incenso dos teus ais,
Talvez ambos à espera do
Outro separados por um
Gato – talvez só impróprio
E sujo com uma lábia
Razoável – nunca saberás como
Perco a respiração quando te
Vejo emaranhar o cabelo
Em espiral e falar de
Sapateado em Chicago e
Fellini e Puccini e todas as
Lendas que seria bom que se
Mantivessem vivas como jóias
Por detrás da cortina engolindo
Mais silêncio
A seco.


joão meirinhos
enkrateia
2016